segunda-feira, 31 de março de 2008

Uma viagem ao Acre dos Anos 80


No último sábado o Coletivo Catraia retomou o seu quase clássico Balanço da Catraia, ali sobre as àguas do Rio Acre. O mote da festa eram os anos 80. Só que ao invés de Trem da Alegria, Turma do Balão Mágico, Rádio Táxi e outras pérolas musicais daquela época de rupturas, o Catraia propôs um resgate da música oitentista sob a ótica de três bandas distintas entre si, mas com uma coisa em comum: o acreanidade e sua indefectível presença na vida de quem por aqui vive.

Dona Chica, Nicles e resquícios do lendário Grupo Capú, ali com o sugestivo nome de Lendários Nativos, diferentes entre si não só no tempo de vida, mas no som que propõem, fizeram a tríade oitentista acreaníssima, indo buscar naqueles idos o que lhes parecia importante. Cada um, cada um. Os declarados carimbos dos anos oitenta ficaram a cargo de Dande Tavares que pontuou os intervalos com o som hits que fizeram época - e continuam fazendo. O saudosismo se misturou ao estranhamento que cada um dos presentes sentiu ao se deparar com o som diferente das três bandas locais.

Tem sido assim nos Balanços da Catraia: um misto de estranhamento e diversão. Em terra onde entretenimento diversificado é raro, é normal o tédio tomar conta. Mas a próxima balada engajada do Catraia vem aí. E promete. Bandas de Rio Branco se preparar para um tributo aos Beatles com forte sotaque acreano, com os clássicos dos fab-four de Liverpool rodando nas guitarras, baixos, baterias, nas caixolas e nos pezinhos de quem quiser dançar. É para se preparar. ;-)



ENTREVISTA: CLENILSON BATISTA
A Difícil Tarefa de Ser Você Mesmo
por Jeronymo Artur e Janu Schwab

Clenilson Batista é o homem a frente do que restou do Grupo Capú - ao menos era, ali na hora da apresentação feita no último sábado, no Balanço da Catraia. Lendário, como sua banda é, Clenilson tem um raciocínio aguçado, típico de quem não apenas segue na vida, mas que interage com ela. Clenilson é do tempo em que ser autêntico era pecado, além de ser muito, muito cansativo. Por isso ele - e as músicas do Capú - fala uma língua própria, que para muitos é estrangeira, mesmo sendo o bom e velho português temperado com o regionalismo das terras acreanas.

Nos tempos que antecederam o Capú, ser estrangeiro era a moda da vez. Era, é, será? Mas na época toneladas de tudo começavam a ser despejadas por aqui. O iéiéié já era mais do Tio Sam do que da família Windsor. O rádio tocava em inglês, Fábio Júnior (ele mesmo) aparecia com pseudônimo gringo e todo mundo queria tomar o lugar de Yoko Ono e ser o quinto Beatle. Pelas bandas do Acre, o Capú foi o eco antropofágico do Tropicalismo que durou alguns anos na cultura tupiniquim. Era assim: juntava-se todo o estrangeirismo, mexia-se misturando com ingredientes regionais e fazia-se a nova música brasileira. Foi assim com os Mutantes, Tom Zé, Caetano, Gil e - por que não? - com o grupo Capú.


Havia nos integrantes do Capú e em outros tantos poucos (tantos porque valiam como muitos, poucos porque eram poucos de fato) um anseio de ser eles mesmos, tão ou mais brasileiros do que outros brasileiros, em fazer daquilo que viviam aquilo que viriam a cantar, tocar e dançar. Pioneiro, o Capú tentou abrir a fórceps a possibilidade da música autoral, quando o que imperava era o isolamento não só geográfico, como o cultural. Segundo Jorge Anzol, baterista do Los Porongas, em artigo no jornal Página 20 ( edição do dia 21 de maio de 2003), naquela época "puristas de plantão não admitiam a linguagem do rock na pseudomúsica acreana". Eram tempos difíceis.

Na marra e na raça, o Capú abriu o caminho para si e para novos artistas. O próprio Anzol é um deles. Quem ouve hoje, torce o nariz e acha retrógrado o papo estranho nos versos e percebe mais a métrica que desfalece, as rimas que se perdem e as notas que são simples. E ignoram a mensagem e o anseio de ser autêntico. E essas coisas estão lá, na métrica, nas rimas e notas simples. Com o Capú não se tratava - nem se trata - de querer aparecer. Mas de precisar aparecer. Mostrar não só o que se é capaz de fazer, mas o que se pensa. Ao Capú e seus - nem tão remotos - tempos de luta pelo autoral, o Catraia reserva um lugar de honra, conquistado palavra por palavra por Clenilson Batista (e pelo Grupo Capú) em sua pequena - mas importante - entrevista:

Catraia - Clenilson, como é fazer parte de uma das bandas precursoras da música autoral no Acre e tocar essa música para uma nova geração?
Clenilson - A coisa mais interessante que tem é que fazer isso na época do surgimento da banda era algo muito díficil, porque a galera só queria que tocasse banda norte-americana, as músicas que estivessem tocando na rádio. A gente tocava nossas próprias músicas e por isso éramos meio que considerados marginalizados. A galera não gostava, queria que a gente saísse do palco. Mas a gente insistia, falando pra eles que tem que falar nossa língua, nossas coisas, cantar o que a gente faz.

Catraia - Então o que impulsionou vocês a continuar fazendo música nesse período tão difícil?
Clenilson - É exatamente o lance do "ideal", você saber que está fazendo a coisa certa. Se você quer crescer e chegar a algum canto, tem que mostrar você. Quando você canta Beatles, Rolling Stones, quem aparece são eles e não você. A gente tem que fazer a nossa própria música. É por ideal mesmo, é você acreditar que pode fazer aquilo, mesmo o sistema sendo bruto e o processo lento.

Catraia - E o que você acha dessa ação do Coletivo Catraia em impulsionar as bandas a fazer música autoral?
Clenilson - Um dos integrantes do Catraia me disse que um dos critérios para se apresentar aqui é ter no mínimo três músicas autorais, e eu achei perfeito. Quer dizer, essa é a época que era pra gente aparecer. Na nossa época, apesar de estarmos fazendo a coisa certa, eu falava: só vão entender a gente daqui cinquenta anos. E não demorou tudo isso. De repente aparece o pessoal do Catraia com essa atitude que é a atitude correta: incentivar o pessoal a criar, não ficar sendo só marionete. Tem que partir pra cima disso sim, e continuar com o projeto, porque tem futuro. Daqui, quem for bom, sai. É como uma peneira, se o cara tiver talento, ele consegue. Ficar tocando cover é muito fácil, agora compor e fazer com que as pessoas gostem é outra história.



CRÍTICA
A "Extrovertência" do Grupo Capú
por Santiago Queiroz

Vindos do interior da transcendente Amazônica Ocidental, de um tempo em que tudo era mais difícil, a banda Capú (ou o que restou dela) apresentou o melhor (ou o pior) da fusão conexa (ou confusão desconexa) da música nativa urbana acreana, quiçá brasileira. É um rock'n'roll filosófico sem sentido que faz muito sentido. Clenilson Batista e suas composições de outros-tempos-de-hoje, nos leva à uma viagem de idas e voltas num mundo criado por cima do real e do imaginário. Musicalmente falando, show demais! Performaticamente falando, show demais! Ali, se você não entendeu nada, você entendeu o show da Capú. Escraxo vertendo ao nada e ao tudo, numa "extrovertência". Regionalismo pouco é bobagem. Interprete como quiser, escute se puder. A Capú é um mistura da seiva da seringueira com as fatias dos muitos acordes musicais americanos pós-guerra que o mundo passou a receber. Com as músicas do Capú, você pensa, reflete e viaja. Simplesmente viaja até um ponto onde o que mais vale é o meio e não o fim. Ah! Yankees, go home!

fotos: Talita Oliveira

10 comentários:

Cidão disse...

errado
Escraxo e "extronertência" vertendo

correto
Escraxo e "extrovertência" vertendo

GiselleXL disse...

É isso aí..
e q a gnt escute mais o q esse povo tem a dizer..
afinal, o rock acreano não começou ontem.

=)

(O comentário excluído aí em cima foi meu, é q eu o fiz com outro login.. =P)

Yuri disse...

Massa a idéia do Clenilson lenda acreana, baita compositor!
Quanto à afirmação:

“Quando você canta Beatles, Rolling Stones, quem aparece são eles e não você”.

Para muitos a idéia do cover é essa. Exaltar, homenagear o ídolo, ou seja, fazer com q ele de alguma forma apareça. Sendo ele famoso ou não.
Penso q p/ “aparecer” não é necessário ser autoral, mas sim ter segurança, conhecimento, originalidade e etc (sim, mesmo fazendo cover!) naquilo que se faz.

Vale lembrar tbm que há os q não querem “aparecer”, apenas tocar aquilo q gosta. Com os amigos, para os amigos e quem mais se identificar. O autoral vem naturalmente, quando percebemos já está aí... Bem aí!! E é essa a verdadeira música, a música que o autor sente prazer em executá-la. A música q a galera canta, critica, dança, e se diverte.

Minha idéia é:
Antes um cover bem executado e com prazer, do que autoral (por necessidade) feito pra “aparecer”. (*ñ generalizar)

Salve salve Clenilson!
*ele tem uma teoria sobre o universo beem foda. Einstein que se segure, hahaha.

Yuri Oliveira.

Handreh disse...

Esse artigo ficou maravilhoso!
o/

Talita Oliveira disse...

O artigo tá muito lindo!
Mas vale um toque: O Clenilson e os meninos não estão se apresentando como Capú, e sim como "Lendários Nativos". O que eles fazem é tocar músicas da banda Capú.
beijo!

Clenilson Batista disse...

Achei legal entrar nesse blog para dá alguns toque quanto a minha apresentação no coletivo catraia no ultimo sabado dia 29.

- Primeiro- Antes de começar a minha apresentação eu fiz questão de anunciar que ia cantar algumas musicas do capú, que é bom frisar são todas de minha autoria em parceria com meu mano Clevisson.
E disse também que para fazer isso eu estava juntando dois momento da nossa musica. Um momento que é o decada de 80 representado por mim, e o atual representado pelo Bala(baterista)Ricardinho (contra-baixo)Fred Margarido (teclado)Jôssam (guitarrista)que batizamos como OS LENDÁRIOS NATIVOS, e foi com esse nome que nos apresentamos, pois pretendo desenvolver um trabalho experimental musical com essa rapaziada, paralelo ao trabalho do Capú.
- Segundo: Enquanto Clenilson e Clevisson estiverem disposto a subir num palco para fazer som, o grupo Capú continua.
O que aconteceu no coletivo catraia não foi uma apresentação do que restou do grupo Capú ou resquicio do Capú. \o que aconteceu foi eu tocando algumas das mais de 80 musicas de nosso repertório autoral.
Portanto está faltando um pouco mais de informação na beira do rio.
- Teceiro: O papo que mais se aproximou das muitas facetas musicais do grupo Capú foi a viagem literária postada com o titulo: "extronertência" vertendo.
- Quarto: Se alguem tiver curiosidade de entrar um pouco mais no universo intelectual que acompanha o grupo e conhecer um pouco mais algumas das veredas capúreanas, leia o meu blog www.olendario.blogspot.com
Entre outras coisas, lá você vai encontrar um papo diferenciado que envolve o trabalho do capú e os trabalhos musicais que pretendo desenvolver com "os lendarios nativos". Entre eles o musical popular "Lenda Pop Festa". se caso o papo for gramatical leia "camalionismo" se for religião leia "Dos analogismo evacuativos divinos" e "Genésico" entre outros.Lá tem noticias do show que fizemos em novembro do ano passado no teatro Hélio Melo.
E pra não me alongar quero deixar claro que não sou contra "couver" nem alface, nem cheiro verde. Quem sabe fazer faz.
Obs. pelo comentário deu pra vê que a Talita Oliveira entendeu o que aconteceu na madrugada de domingo no catraia.
*Dona Chica soa tribal legal.
*Nicles tem atitude, gostei!

Kaline Rossi disse...

Muito bom o texto.
E o mais legal de ler sobre e assitir o show com músicas da banda Capú é o privilégio de termos o passado nosso,passado musical acreano em frente aos nossos olhos e ouvidos.No presente.
Muitas pessoas,cidades,culturas não têm oportunidade de conhecer aqueles que os antecederam ou os influenciaram de forma direta ou indireta.
Acima de tudo ouvir e conhecer Capú é um privilégio.

Jorge Santorini da Maia disse...

Bom, Lendários Nativos ou não, foi emocionante ver e ouvir o Grupo Capú, completo ou não, naquele dia. Pra quem sempre ouviu falar das peripécias do grupo, foi uma boa oportunidade. Respeitando as devidas proporções é como ver o Pink Floyd na persona do Roger Waters - por mais que ele tenha uma nova banda ou uma nova proposta. E que essa verve criativa e autêntica permaneça com o lendário Clenilson e contagie cada vez mais seus companheiros de banda - para que eles,além de nativos, se tornem lendários.

Buerão disse...

"Somos da Via Látex"... Bem vindo ao Seringal Astral...

Clenilson Batista disse...

Me pediram pra fazer uma nova visita a este blog, pra ver uns novo comentário e explicar porque algumas pessoas acham que o Capú parou ou que ele não existe mais.
Uma das coisa responsavel por essa visão equivocada, é um pseudo-video documentário sobre o grupo que ainda teimam em exibir por ai, e que está sob judice, e portanto não pode ser exibido. Existe outras bobagens sobre a nossa história que não vem ao caso oculpa o precioso espaço desse mar de vidro misturado com fogo com eles. Tamos ai!

Mais uma vez quero agradecer o Saulinho pelo convite. Valeu!
E aproveitar para também agradecer e incentivar os comentários de:
- Gisellex, pela postura nacionalista regional. É bem Capú!
- Yuri Oliveira por me lembrar que eu também tenho o lado teorico apocaliptico Lendacreano, parte dele consta no meu livro "Seringal Astral" lançado em 1999.
- Talita Oliveira pelo toque certo, na hora certa.
- Kaline Rossi Previlégio foi descobri que existem pessoas como você, navegando nesse movimento.
- Jorge Santorini, Você também faz parte dessa Lenda, e obrigado pelas palavras.
- Buerão e do planeta ouriço, da constelação castanha.
É isso ai! Vem ai mais um final de semana, e coletivo catraia continua e grupo Capú também, cada um na sua praia. E como é de costume, gosto de mandar uns toque, e aproveito a oportunidade pra deixar mais um bem Capúreano:
“...Antes dOS PREVISÍVEIS ATAQUES, DO EXÉRCITO DOS HISTÉRICOS GUARDIÕES DAS nossas “LEIS” GRAMATICAIS DITAS OFICIAIS, quero avisar que ADOTo A LINHA ANTI-INTELECTUAL ANARQUISTA benefica comunitária, OU SEJA, SE VOCÊ ENTENDEU a mensagem; entendeu O QUE ESCREVi, ESTÁ PERFEITO! O RESTO, É RESTO."