segunda-feira, 8 de junho de 2009

Só se for pra ser sincero: Glauber Jansen

Por Victor Manfredini
Nosso entrevistado de hoje é Glauber Jansen. Ele é estudante de Contabilidade, membro do Coletivo Catraia, catraia sonora, e guitarrista da banda Nicles. A banda lançou recentemente um SMD, O Inútil Discurso Transcedental, participou do projeto Acústico em Som Maior, em 2008, tem mais de 5 anos de existência e é uma das bandas mais importantes da cena musical acreana, sem medo de exageros. Na entrevista ele fala de ambiente musical, independência, influências, perspectivas e dá até conselhos! Confira:


Justificar
CATRAIA: Primeiro eu quero um conceito seu: O que é SER INDEPENDENTE, por Glauber Jansen?

GLAUBER JANSEN: Eu penso que seja a forma de você atuar no mercado sem ter que se prender a um sistema. Ser independente é você tá livre mesmo. Porque existe o circuito independente que também confunde muito, porque a banda acaba às vezes até se prendendo, acha que tem que se prender ao circuito independente.. E independente é você saber que tá ali pra fazer qualquer coisa, qualquer ação, independentemente de alguém aprovar ou não. É você fazer o que você quer. Assim: Independente!

CATRAIA: Como você define as fases da música brasileira, dos Mamonas Assassinas pra cá? O surgimento das bandas, de fora dos grandes centros urbanos tocando músicas próprias foi importante pra musicalidade do Brasil?

GLAUBER JANSEN: Rapaz, com certeza foi um avanço. Na época, eu gostava dos Mamonas Assassinas, mas eu era muito novo. Ouvia Mamonas em fita cassete, e achava legal, mas era muito desligado com essa coisa de música. Curtia porque era moda e eles eram talentosos, inclusive hoje até reconheço que eles eram talentosos mesmo. Mas a evolução é notória sim. Até porque a vontade das bandas de atuarem, de produzirem mais o próprio conceito, trabalhar mais isso, aumentou também. E isso só vem refletindo e se multiplicando cada vez mais. É como eu vejo. Eu acho que eu tô vivendo uma época boa, que muita gente não viveu. Queria ter vivido outras épocas também, da própria história da música.. às vezes fico até viajando, pensando o que aquele pessoal da época da ditadura passava, em ter que omitir o seu pensamento, por causa de um sistema político.. E hoje não. Hoje a pessoa tem cada vez mais liberdade pra expor o que pensa e tudo mais.

Glauber Reis. Quer dizer, Glauber Jansen =)

CATRAIA: Qual o estilo de música da sua banda? Podemos selar a Nicles como uma banda de um estilo fixo? Que segue um gênero pronto?


GLAUBER JANSEN: Não. Não dá. Hoje em dia acho que é difícil. Até dá.. porque a gente vê outras bandas que tem o seu estilo, que se prende nele ali. Mas eu não sei definir qual estilo da Nicles não. O que eu penso é que a gente faz o que é da hora. O que a gente tá sentindo na hora. Eu fico imaginando que daqui há um, dois anos, quando a gente for lançar outro álbum, as músicas vão ser muito diferentes do que são agora. Até as de agora já são estranhas.. Porque até eu achava estranha a Nicles antes de entrar pra ela. E já essa época, quando eu só ouvia, eu já não sabia definir o que é que era.. É uma mistura de algumas coisas.. mas não existe um conceito não.

CATRAIA: E então, qual a expectativa antes do lançamento do SMD da banda e qual a percepção de vocês integrantes depois do lançamento? Foi o que esperavam?

GLAUBER JANSEN: Rapaz, a gente já vinha se planejando pras atividades de 2009. Antes do lançamento a gente tava tranqüilo. Passamos um mês e meio ensaiando só pra aquele show e foi bem bacana. Houveram alguns imprevistos, mas foi legal o dia do lançamento. Eu gostei pra caramba. E é isso:

“A gente tá bem, a banda tá se entendendo, estamos todos tranqüilos uns com os outros. Posso dizer até que quatro cabeças pensam melhor que cinco, como era antigamente..” [risos]



Nicles em sintonia : 4 cabeças pensam melhor que 5.

E a gente tá se sintonizando muito bem. Claro que gostamos de ter lançado o álbum, mesmo porque tiramos um peso das costas que era ter que lançar, porque a gente tinha a obrigação de prestar contas com a Lei de Incentivo que dependia do lançamento também. Mas foi bom. A gente vendeu alguns SMDs, tem gente que ainda procura, e a gente tá esperando participar dos outros festivais que vão rolar aí. Quem sabe o Jambolada em Uberlândia, o Calango em Cuiabá.. Fazer um show massa aqui no Varadouro, e pra isso estamos trabalhando. Vai ter o congresso [Fora do Eixo, que esse ano vai ser aqui em Rio Branco], com pessoal de fora, e a gente vai ter oportunidade de divulgar mais o trabalho. Então esse ano de 2009 tá bem favorável pra banda. Aliás, com o congresso, a cena vai dar uma bombada aqui. É só a galera ficar antenada.

Nicles por Renato Reis

CATRAIA: Onde você aprendeu a tocar guitarra? Quando começou a tocar já pretendia formar uma banda?

GLAUBER JANSEN: O meu pensamento de começar a tocar o instrumento começou com o violão e era só pra fazer rodinha com a galera do meu bairro e tocar de noite, quando não tivesse nada pra fazer mesmo. Aí ganhei um violão do meu pai e na época eu era da igreja Metodista e aprendi muito com o pessoal lá. Inclusive meu irmão que continua na igreja, toca guitarra também e tá numa banda de heavy metal, a Soldier, que também é muito boa. E aprendi assim mesmo: Peguei algumas aulas e até então não visualizava pra mim uma banda não, só queria aprender a tocar mesmo.. Aí comprei um equipamento legal, pra fazer um som com o Thiago [Melo] da Filomedusa que mora na minha rua, e a gente fazia mesmo. Ele tinha uma bateria, a gente ia lá pra casa e tocava. Aí eu apresentei o Thiago pro Saulo [Machado] quando a Filomedusa tava precisando de um baterista, e deu certo e o Thiago tá lá mandando ver. Aí fui conhecendo o pessoal, o Saulinho me apresentou pra algumas pessoas..

“O Kilrio eu já conhecia dos tempos do colégio, porque estudamos juntos o 3° ano. Aliás ele não mudou nada, só tá mais doido. Não, brincadeira... menos doido. No 3° ano ele era mais punk..” [risos]

E aí foi fácil: Tinha o equipamento na mão, o Saulo me falou que o Wesley [Moura] tava saindo da Nicles e aí eu entrei. Foi quando eu comecei mesmo e a banda me ajudou a desenvolver muita coisa.

CATRAIA: De onde é que vem essa coisa que roqueiro tem que subir no palco com cara feia e agressivo?

GLAUBER JANSEN: É.. tem uma galera que tem esse estilo mesmo. E eu acho que vai do estilo mesmo. Tem o pessoal que toca com o pé encima do retorno, faz umas caras feias, mostra a língua, sei lá.. Mas eu gosto de ir pelo sentimento. As caras feias não acho legal não. Acho forçado demais. [risos]

“O que me atrai mais é o sentimento que o artista consegue expressar, que ele consegue passar no palco, que ele consegue transmitir ali..”

no Acústico em Som maior: com sentimento

CATRAIA: O que você recomendaria pra alguém que anda perdido, pensando bobagem, que acaba de perder o emprego, por exemplo, ouvir para se sentir melhor?

GLAUBER JANSEN: Eu recomendo algo que ele não acabe ficando mais depressivo né.. Não vou recomendar Radiohead claro, apesar de ser umas das bandas que eu mais gosto. Mas eu recomendo.. deixa eu ver.. The Derek Trucks Band. Uma banda americana, que é um guitarrista de blues que toca um som bem bacana, bem pra cima, e não é esse blues convencional que a gente é acostumado a ouvir não. É um blues mais trabalhado e vale a pena ouvir.

CATRAIA: Qual o balanço que você faz do cenário independente de bandas do Acre? Tem realmente crescido em público, como parece?

GLAUBER JANSEN: Certamente o cenário evoluiu. Se bem que eu não conheço o cenário dos anos 90.. Só lembro que nos fins de 90 eu conhecia bem a banda Stigma na época. A gente sabia que tinha a banda Stigma, a R15, umas bandas que eu conhecia por nome, mas não conhecia muito bem o cenário. Mas hoje como eu vivo no cenário, penso que pela articulação da galera, pelo que tem acontecido, pela maior ligação com o cenário nacional, a banda local, fazendo esse balanço, tem evoluído sim.
“Agora, o que eu acho que tá faltando é a gente mesmo estimular mais a produção de bandas. Tem gente até que tem aquela vontade de tocar e tal, mas não age.”

E quanto mais as pessoas agirem, participarem e produzirem, mais o superávit desse balanço vai ser massa pro cenário acreano. E isso é bom!

Demo da Nicles lançada no Acústico em Som Maior da Banda, em 2008.

CATRAIA: Qual a música que mais marcou a sua vida?

GLAUBER JANSEN: Caramba, música? Passou um monte aqui na minha cabeça, mas eu não sei dizer uma que mais marcou não. Espera. É complicado dizer isso.

CATRAIA: Banda, então.

GLAUBER JANSEN: Taí, banda: A banda que mais me marcou e que até hoje ainda marca é a Red Hot Chili Peppers. Quando eu conheci Red Hot, foi na época do Rock In Rio 2001. Fui conhecer o trabalho deles a partir do álbum Californicaton, e conheci de uma forma um tanto quanto comercial até, porque pra mim a Red Hot de antes não era exatamente da forma que hoje eu conheço, que hoje ela é, não sei se vocês me entendem.. Mas continua muito boa e se você for ver a discografia deles -desde 1985 existe a banda - tem muito CDs doidos mesmo. Se bem que eu gosto mais do último álbum, o Stadium Arcadium, que tem uns hits bem legais, e a produção mesmo do álbum é bem legal também. Vale como referência de produção.


Arte do Hildo

CATRAIA: Você acha que a música tem o poder de mudar a personalidade e consciência das pessoas?

GLAUBER JANSEN: Acho que sim. Tem também o lance da aceitação da pessoa com a música e o envolvimento.
“Mas se a pessoa quiser se envolver mesmo com a música, ela cria com certeza uma forma de pensar diferente.”

É tanto que existe a faculdade de musicoterapia. Porque a música consegue controlar muita coisa mesmo. Do que a música trata, os conceitos.. É muito bom. Eu recomendo música!

CATRAIA: E pra fechar, você pode aqui falar tudo o que quiser, pra quem você quiser, sobre o que você quiser. Música, cenário, pessoas, ações.. Fale o que vir à sua mente agora. Você é livre. Use sem medo a sua sinceridade Glauber Jansen..!

GLAUBER JANSEN: Ahh, eu espero que as pessoas que acompanharam a entrevista, tomem como resultado que tem que se produzir mais. Que a cada evento, a cada festival, o Coletivo Catraia tá aí pra apoiar as bandas, pra apoiar a produção mesmo. Porque quanto mais gente tiver produzindo no cenário local, independente de estilo, de gênero, pode ser um forró pé-de-serra ou sei lá.. a gente vai tá aí apoiando todo mundo, e é isso que vale.

6 comentários:

Hugo Costa disse...

mto bom

Victor Manfredine disse...

massa a entrevista!
aee Glauber, você recomendou
e a The Derek Trucks Band
ganhou mais um fã. =)

Thalyta França disse...

Massa demais! aii é Glauber meu amigo haha

André disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
André disse...

Esfolação total!!!

Silvio Margarido disse...

è um "inutil discurso trancedental", heheh!!